“Até o mar vai ficar com ciúme de ver nascer tanta beleza aqui.” A canção de Alceu Valença, trilha sonora de um vídeo publicitário da prefeitura de Recife, se refere ao projeto monumental de Oscar Niemeyer para o futuro Parque Dona Lindu, na praia de Boa Viagem. “Será um novo cartão- postal do Brasil”, diz o prefeito da cidade, João Paulo Lima e Silva, que investe no traço audacioso do arquiteto para atrair a atenção mundial à capital pernambucana. Aposta certeira. Niemeyer tem mesmo o talento de criar espaços públicos que rapidamente caem no gosto popular e viram referência internacional. Seu primeiro projeto de destaque, o Conjunto da Pampulha, erguido nos anos 1940 em Belo Horizonte, é reconhecido não só pela beleza e ousadia das formas: teve grande influência na urbanização do bairro e tornou-se símbolo da capital mineira. “Oscar consegue fazer uma obra-prima de força emblemática. Você identifica a cidade, o país, a alma, o momento, a história com a forma dele”, define o arquiteto e urbanista Ítalo Campofiorito no documentário A Vida É um Sopro, dirigido por Fabiano Maciel. Exemplo marcante é o Palácio da Alvorada, um dos primeiros a ficar pronto em Brasília, em 1957. Suas colunas curvas – as mais belas desde as colunas gregas, na opinião do escritor francês André Malraux (1901-1976) – tornaram-se verdadeiros ícones da arquitetura moderna, copiadas no mundo todo. O Museu de Arte Contemporânea (MAC), construído em 1996 em Niterói, no Rio de Janeiro, é outro que virou logotipo: seu desenho tem sido reproduzido por todo o comércio no entorno. Graças a ele, o município, antes totalmente ofuscado pela capital carioca, entrou para o roteiro cultural e turístico internacional.
Em suas obras mais relevantes, Niemeyer consegue efetivamente valorizar os espaços públicos, o que também colabora para sua popularidade. “Seus projetos respeitam a dimensão humana, repletos de recintos acolhedores, que favorecem o convívio”, defende o arquiteto Ciro Pirondi, diretor da Escola da Cidade, em São Paulo. Ele cita como exemplo a marquise do Parque do Ibirapuera, projeto dos anos 1950. “Com uma cobertura ampla, integrada ao jardim, é mais que uma área de passagem: tornou-se lugar de permanência, espaço de lazer, ponto de encontro”, diz Ciro. O mesmo acontece no prédio residencial paulistano Copan, de 1966. “Aberto, generoso, ele convida a entrar. Não existe uma fronteira clara entre a cidade e o edifício”, observa o arquiteto e ensaísta Guilherme Wisnik. No MAC de Niterói, ao suspender a construção em um único apoio, o arquiteto preservou quase todo o terreno, criando uma verdadeira praça . Sua rampa larga e sinuosa convida o visitante a subir devagar, contemplando a paisagem e a própria arquitetura. Em projetos recentes, como o Teatro Raul Cortez, construído em 2006 em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, Niemeyer insere amplos portões atrás do palco. “Basta abri-los, a qualquer hora do dia, para que uma multidão se reúna em frente ao teatro”, conta a diretora, Jesus Lima. Com a aproximação de seu centenário, em 15 de dezembro, seu trabalho repercute ainda mais. Niemeyer tem pelo menos seis grandes projetos em andamento, no Brasil e no exterior. Entre eles , um centro cultural em Avilés, no Principado das Astúrias, norte da Espanha, que vai levar seu nome e faz parte de um plano de revitalização. “Com a obra assinada pelo mestre, esperamos mais 1 milhão de turistas por ano na região”, declara Natalio Grueso, diretor do centro cultural.
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