Arquitetura & Construção
 
 
 
 









 
Edição de agosto de 2004
Pedras para toda obra
Elas têm múltiplo uso na casa: podem servir em fundações, paredes maciças, revestimentos e muros de arrimo. É só escolher.



O Brasil é o quinto maior produtor de pedras do mundo. Das nossas minas saem jóias como o arenito vermelho, o granito verde e o raro mármore azul. "Somos apaixonados por elas, herdamos isso dos portugueses", avalia Ruth Verde Zein, professora da Universidade Mackenzie e especialista em teoria, história e crítica de arquitetura. "As naus que vinham de Portugal para recolher nossas riquezas traziam na vinda para cá um único carregamento: pedras de Lioz [cidade portuguesa], que serviram de fundação e arremate de casas senhoris e igrejas do Brasil colonial."

Seu emprego nas construções é múltiplo e encanta os profissionais da arquitetura. "Gosto de utilizar elementos naturais. E a volta à simplicidade da natureza se tornou uma tendência atual", confirma o arquiteto paulista Ricardo Miúra. Talvez por isso tantos projetos com granitos, quartzitos ou pedras calcárias saiam das pranchetas ultimamente. "Se um arquiteto de renome começa a utilizá-las de determinada maneira e com bom resultado, a moda pega logo", diz Manolo Iglesias, técnico espanhol que trabalha há 40 anos com a venda e instalação de pedras em São Paulo.

Só um lembrete para os fãs do material: como elas podem durar séculos, é bom não abusar - o risco de cansar é grande. "Quanto mais neutras, melhor. E evite misturar tipos diferentes no mesmo ambiente", aconselha a arquiteta paulista Luizette Davini.

Das fundações aos muros e às paredes
"O granito bruto, facilmente encontrado no solo e subsolo do Brasil, é o material ideal para muros de arrimo e alicerces", recomenda o arquiteto Marcos Acayaba, professor da cadeira de Projetos e Fundações da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). Segundo ele, nas fundações o granito é resistente, agüenta bem o peso estrutural da casa, é impenetrável à água e muitas vezes pode ser extraído no próprio local da obra, viabilizando seu emprego sem grandes custos. "O que deve ser analisado cuidadosamente, porém, é se o terreno é favorável a esse tipo de fundação", conta ele.

Lugares próximos a rios ou vales e áreas pantanosas não suportam essa espécie de base - a pedra corre o risco de ir afundando com o tempo. "Nesse caso, é melhor utilizar estacas até atingir uma parte mais firme embaixo", diz. Já em terrenos montanhosos ou litorâneos, a areia, se bem compactada, torna-se sólida e resistente, comportando o assentamento das pedras. "Uso o material há 35 anos em fundações e muros de arrimo. Se o terreno permite, é a solução ideal, principalmente quando elas podem ser extraídas e cortadas no local", garante Acayaba. "Mas, quando não existem pedras por perto, fundações com esse material acabam se tornando economicamente inviáveis", alerta o engenheiro Jacques Diament, da Pedras Amazonas, de São Paulo.

Quanto à manutenção, Acayaba é favorável ao envelhecimento natural, com limo, musgos, plantas e bichinhos. "Para que limpar pedra de muro? Ela fica linda com o correr do tempo...", afirma. Quem prefere a pedra clarinha e brilhando dentro de casa precisa impermeabilizá-la com resinas. Na área externa, deve ser limpa com cloro ou ácido muriático diluído (com máscara e luvas). "Os ácidos, porém, servem somente para pedras resistentes, como granito ou quartzito. O mármore, por exemplo, não agüenta nem a acidez de um champanhe derramado", fala o engenheiro químico Rogério Cícero de Sá, da Miracle Clean Stone Company, de São Paulo.

Para não ter erro...
Especialistas respondem as dúvidas dos leitores sobre o uso das pedras

Posso recorrer às pedras do próprio terreno, removidas durante a terraplanagem, para a estrutura da casa, substituindo o ferro das fundações? Valmir Cinquini - via e-mail

Se o seu terreno for sólido, é possível que a fundação seja feita de pedras. Podem ser empregadas também nos muros de arrimo e peitoris das janelas. Elas devem ser cortadas em tamanhos de 40 a 50 cm e transportadas com carrinho para o local onde serão utilizadas. É possível até construir uma casa de vários andares. Mas é imprescindível fazer o cálculo estrutural da distribuição de carga.

A parede que envolve a escada da minha casa será feita com pedras portuguesas. É a melhor pedra para isso? Ela também pode ser empregada na lareira ou na churrasqueira? Juliana Costa - via e-mail

Pedras portuguesas podem servir para recobrir a parede da escada, mas para lareira e churrasqueira necessitam de impermeabilização (com resina própria). "É bom lembrar que pedras claras, mesmo tratadas, revelam mais a sujeira provocada por gordura e fuligem", alerta Rogério Cícero de Sá, da Miracle Clean Stone Company, de São Paulo.

Posso fazer todo o subsolo da casa com pedra? Ou seu uso é só decorativo? O material mais adequado é o granito bruto? Como devo impermeabilizá-lo e fazer a manutenção? Maria Andrada - via e-mail

"Pode fazer, mas o subsolo corre o risco de ficar úmido e frio demais", alerta o engenheiro Jacques Diament, da Pedras Amazonas, de São Paulo. Além de caro, se a pedra não for do próprio local. Ele aconselha a preparar uma fundação convencional adequada ao solo e apenas revestir parte das paredes do subsolo com pedras de qualquer tipo (como o granito rachão). Um lugar perfeito para isso é a adega. A impermeabilização é feita com resina e, nesse caso, basta passar pano úmido.

Vou fazer o muro de arrimo com pedras (o terreno é em declive). O que é mais econômico: uma parede de alvenaria com revestimento ou de pedra? Luis Alberto Verardo - via e-mail

"A pedra pode ficar mais barata - mas só se for extraída do local ou de uma região próxima", explica o engenheiro paulista Antonio Carlos Lentini, especialista em fundações e cálculo estrutural. Se o muro de arrimo for alto (2 m ou mais), deve ser reforçado com pilaretes de ferro para que não haja movimento das pedras.

Posso fazer uma cascata perto da piscina com pedras? Qual o preço das naturais? Ricardo José de Almeida - via e-mail

"Cascatas podem ser feitas com pedras de granito e moledo de cerca de 40 cm de diâmetro unidas com cimento", diz o técnico Manolo Iglesias, da Pedras Bellas Artes. O importante, segundo ele, é que haja uma boa fundação, por causa do peso. "Se houver uma laje bem estruturada perto da piscina, as pedras podem se apoiar nela. Encostá-las num canto de parede também facilita o apoio, porém a fundação só é dispensada se existir uma laje por baixo", aconselha. Para uma cascata de 2 m de altura, são necessários 2 m3 de granito (R$ 400). Pelo peso da obra, ela requer fundação. A montagem da peça sai por volta de R$ 3 mil.

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Reportagem:
Liane Alves e Silvia Goichiman
Fotos:
Luiz Roberto Pereira