Arquitetura & Construção
 
 
 
 









 
Edição de setembro de 2004
Tão longe, tão perto

A Vila Operária Chácara do Algodão fica em plena zona sul do Rio de Janeiro, bem perto de algumas das principais vias de circulação da capital. Mas a vida ali mais parece de cidade do interior. A criançada brinca o dia todo na rua. De tarde, os vizinhos colocam cadeiras para fora e ficam de bate-papo na calçada. Para completar o clima nostálgico, as casinhas geminadas têm uma vista privilegiada: a mata do Jardim Botânico. Mesma paisagem que emoldurava o conjunto quando ele foi construído, em 1891, para abrigar os operários da Companhia de Fiação e Tecelagem Carioca, que funcionava num imenso galpão ali perto. Com a falência da fábrica, nos anos 40, o galpão veio abaixo, mas a vila foi preservada. Até hoje a maioria de suas construções - tombadas em 1987 pela prefeitura - é ocupada por famílias de ex-funcionários da companhia. Aos poucos, as fachadas seculares, as paredes de pedra e o pé-direito alto foram atraindo novos moradores.

Nas próximas páginas, você conhecerá uma das casas, que foi reformada no ano passado. A atual proprietária - fotógrafa carioca que vive há 15 anos em São Paulo - havia morado nos arredores quando criança e sempre admirou a arquitetura da vila. Em 2001, uma amiga abriu ali uma galeria de arte, e a fotógrafa percebeu mais um atrativo do bairro - graças à demolição de um muro de alvenaria do Jardim Botânico, o verde havia ficado escancarado. "Foi o suficiente para despertar meu velho sonho", conta ela, que em dezembro de 2002 comprou um sobrado no lugar.

Como viaja muito ao Rio, para trabalhar e passear, a fotógrafa queria uma casa versátil: que servisse como escritório e refúgio de fim de semana. "Quando comprei o imóvel, seu estado era tão ruim que só pude ocupá-lo depois da obra", lembra ela. Os ex-moradores haviam levantado o telhado e construído um novo pavimento, com ambientes escuros e mal distribuídos. Nos fundos da construção, paredes improvisadas roubavam espaço do pátio. Resumindo: a reforma foi completa. Para projetá-la, a proprietária convidou um amigo de infância, o arquiteto Francisco Eduardo Hue. Ele botou abaixo as paredes internas e redesenhou toda a estrutura. A casa ganhou um mezanino e um novo andar nos fundos. "Tudo isso foi feito sem alterar a fachada original, que recebeu apenas nova pintura, nem a cumeeira preexistente, já que a construção é tombada", diz o arquiteto, autor de outras três reformas na vila.

Pé-direito alto, janelas amplas e presença de pátio interno mantinham as construções da vila sempre arejadas: qualidade que o arquiteto procurou resgatar. As paredes que avançavam sobre o pátio foram demolidas e ergueram-se novas divisórias no lugar original. "Agora, a área livre ampliada garante um respiro aos ambientes", explica Hue.

Outro elemento recuperado: a varanda que unia a casa à edícula. "Para ganhar espaço interno, construí um segundo andar sobre ela. Em compensação, o ambiente ganhou um painel de vidro com portas de correr, que permite integração com o pátio, como acontecia antes", diz Hue. A edícula reconquistou suas funções primeiras. Ali ficaram a cozinha e um banheiro. Para favorecer o conforto no interior, o arquiteto se valeu de recursos modernos - como a clarabóia do terraço, que traz sol para a sala. No mezanino, portas de correr de vidro deixam entrar vento e luz.

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Projeto:
Francisco Eduardo Hue e Fernanda Modiano (assistente)
Cálculo estrutural:
Fernando Fontenelle
Cálculo de instalações:
Sérgio Lomonaco Carvalho
Construção:
Souza Camargo Arquitetura e Construção
Reportagem:
Araci Queiroz
Fotos:
Cláudia Laborne