Alguns vizinhos apareceram durante a obra para saber o que esconderiam aqueles muros. A construção, pronta depois de 12 meses, revelou-se um condomínio horizontal. Mais um lançamento que se juntava aos 665 erguidos na Região Metropolitana de São Paulo entre janeiro de 1999 e setembro de 2004, segundo a Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp). Como os outros, ele alimenta a idéia de morar com liberdade - sonho que os apartamentos parecem ter usurpado. Em casas como estas, aparentemente protegidos da violência, os moradores podem fazer barulho, criar animais, ter um jardim. A arquiteta Mônica Drucker, a pedido da Pirandello Construções, catalisou esses desejos com uma enzima a mais - privacidade total dos imóveis e espaço comum bem restrito. Era o que buscariam os futuros moradores.
"Meus dois cachorros nunca podiam descer no playground do nosso prédio. Assim, vivíamos presos dentro de um apartamento de 300 m2. Decidi que eles precisavam de um lugar ao sol. Procurei um corretor, visitei cerca de dez condomínios horizontais na cidade e achei todos claustrofóbicos. Ao chegar aqui, encontrei uma construção bem iluminada, aberta para as árvores do bairro e com um quintal só nosso. Exatamente como eu imaginava para mim, minha filha, meu marido e para Alf e Nina, nossos bichos de estimação." Célia, casa 1
"Morei numa casa quando era criança. Meu marido, que é alemão, também. Já naquela época, nós dois tivemos problemas com assaltos. Depois de casados, passamos um período fora do Brasil. Ao voltarmos, quisemos que nossa filha fosse criada num lugar amplo, com área para brincar, mas nos preocupávamos com a questão da segurança. Aqui encontramos a situação quase perfeita - digo quase porque o muro dos fundos poderia ser mais alto. Mas, ao contrário de outros condomínios, temos até churrasqueira e piscina privativas." Fabiana, casa 4
A arquiteta não sabia quem seriam os futuros proprietários. Isso tornava o projeto uma aventura. Uma análise sobre possíveis compradores de casas em condomínios revelava famílias de casais jovens com filhos pequenos. Ela ouviu a estatística, mas não se prendeu a isso. "Imaginei casas isoladas, para clientes de alto poder aquisitivo e gostos refinados", conta. Deixou de lado os programas-padrão - que partem de um número determinado de quartos - e pensou numa distribuição que permitisse a melhor iluminação natural. Entre os compradores há três casais jovens, como aponta a estatística. E um casal de meia-idade, com filha adolescente.
"Visitei mais de 50 condomínios antes de investir aqui", conta Renê Roberto Campanhã, um dos empreendedores, que viveu sua primeira incursão no mundo das construções. Ele observou que abusar do número de moradias no terreno é uma armadilha. Pela Lei de Vilas da cidade de São Paulo (que rege esse tipo de edificação), o lote poderia conter até seis residências. Campanhã e os sócios pensaram em cinco e acabaram se rendendo à orientação da arquiteta - quatro seria o número máximo. Mais que isso resultaria em casas apinhadas.
Meu bem, meu mal
Se a solução parece tão boa para quem gosta de casa e quer morar com segurança, por que os condomínios horizontais levantam polêmica entre os urbanistas? Primeiro por descaracterizar os bairros em que se localizam. Ou seja, terrenos arborizados com casas antigas cedem espaço para muros altos, que formam bolsões isolados nas ruas. "Nos moldes de hoje, eles causam sérias fraturas na continuidade do tecido urbano, desprezando o espaço público e deixando-o ainda mais suscetível àquilo que não queremos: a violência", diz o arquiteto uruguaio Hector Vigliecca, há 30 anos radicado no Brasil. Ele lembra que o conceito tradicional de vila, que gerou a lei paulistana, refere-se a um grupo de casas num mesmo lote e não ao isolamento delas ou a guaritas ameaçadoras. "A respeito da segurança, creio que temos tecnologias mais amigáveis que aquela dos muros medievais", finaliza. A questão da violência urbana, aliás, não é o único elemento que catapulta tais empreendimentos. A sedução da moradia exclusiva pode ser a base desse mercado, pois mesmo as cidades com menos de 100 mil habitantes e índices baixos de furtos ou assaltos já contam com seus condomínios. Ao avaliar panfletos publicitários de lançamentos desses imóveis, a pesquisadora Denise Mônaco dos Santos, ligada ao Núcleo de Estudos da Habitação e Modos de Vida da Universidade de São Paulo (Nomads), detectou o apelo ao status. "Eles criam um novo padrão de segregação social e espacial", afirma Denise. Há ainda outra incoerência nesse novo jeito de morar: "Embora teoricamente as pessoas se agrupem ali por identidade, o uso das áreas semipúblicas (ou semiprivadas) nem sempre proporciona comunicação", aponta a arquiteta acriana Ana Lúcia Reis Melo Fernandes, que observou a formação de condomínios em Rio Branco e Recife. Outro ponto: comparadas aos apartamentos, algumas casas são menores e têm menos privacidade - nem por isso saem mais baratas. Isso indica que os tipos de condomínios variam muito, em número de unidades, área, estilo e sistema construtivo, além de serviços oferecidos aos moradores. Cabe uma pesquisa cuidadosa antes de escolher o que atende ao seu perfil.
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