Arquitetura & Construção
 
 
 
 









 
Edição de maio de 2005
Sangue novo
O horizonte cinza e a realidade dura do centro de São Paulo não animam ninguém a morar ali. Porém, há quem descubra jóias entre os maciços de concreto, como os mais novos moradores deste prédio da década de 50.
Moro num agitado ponto paulistano. Meu prédio fica numa rua barulhenta, que mistura comércio e residência, e serve de passagem para um sem-número de linhas de ônibus. Pequeno, ele não tem guarita nem porteiros. Já o apartamento, cinqüentão, me compraz com seus 165 m2 de área e um pé-direito de 3 m, anticlaustrofobia. Quando o comprei, porém, descobri que tinha abraçado uma causa: a de ajudar a manter em pé, seguro e conservado um velho edifício. Isso exige carinho e dedicação ao lugar ­ e, assim, minhas horas de descanso têm ido embora. Foi pensando nisso que desci a pé as ruas da Vila Buarque, no centro, para me encontrar com moradores deste edifício também dos anos 50. Ali, nos últimos quatro anos, algumas unidades mudaram de mãos, e a nova leva de proprietários reformou seus apartamentos. Agora, se dedica à recuperação e à melhoria do conjunto. Por coincidência, todos são arquitetos ­ alguns já se conheciam, outros não. Eu estava curiosa para ouvir essa história e saber por que eles tinham eleito a Vila Buarque, no combalido centro da metrópole, para morar.

O prédio de 1957 (foto de abertura), erguido pelo engenheiro Wolf Lifschitz, fica em frente a uma grande praça ­ situação que encantou os novos proprietários. Diferentemente das instalações internas, a fachada ainda está bem preservada, com suas grandes vidraças e as pastilhas restauradas.

Cenas da Vila Buarque
Para quem não conhece esse trecho de São Paulo (ou já esqueceu como é), vale dizer que ele é peculiar: "Trata-se de um modelo de bairro que mistura comércio, habitação e escolas", lembra Nadia Somekh, diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Instituto Presbiteriano Mackenzie. Essa instituição de ensino inseriu suas unidades pelo bairro, e com o tempo ajudou a desenhar o perfil do lugar. Há um vai-e-vem de alunos o dia todo. A poucos quarteirões do Mackenzie, está a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, fundada em 1933, que formou personalidades como o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso. O teatro Sesc Anchieta, o Senac Consolação e o Centro Universitário Maria Antonia integram o circuito cultural. À noite, porém, outro lado aflora: night clubs acendem os luminosos, travestis e mendigos dividem as calçadas. É comum alguém vir lhe pedir uns reais porque acabou de ser assaltado (melhor não negar, né?).

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Espaço fluido
Vinícius Andrade e Lua Nitsche foram os primeiros a me receber em seu apartamento. Ao abrirem a porta, já deu para enxergar, do outro lado da sala, as imensas janelas emoldurando o verde da praça. Era hora de almoço, e o casal de arquitetos tem o bom hábito de fazer a refeição em casa (Lua tem seu escritório de arquitetura em outra região da cidade, mas o dele é pertinho). Tudo fica à vista, pois a reforma de quatro meses botou abaixo as paredes que enclausuravam a cozinha, a sala e os quartos. Só o banheiro e o quarto de Maria, filha de Vinícius, são convencionais nesse ponto. Com o apartamento reformulado, Vinícius se dedica hoje ao prédio: "Num exemplo de doação pessoal, ele está estudando um novo projeto arquitetônico junto com outros moradores. A idéia é não só recuperá-lo como dentro do possível modernizá-lo", conta o síndico, Arnaldo Aira Maransaldi.
 
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Lugar para a gatinha e as obras de arte
Dessa nova leva de moradores, Luiz Carlos Martinho, o Caíto, foi o primeiro a aportar no prédio, em 2001: "Me formei arquiteto, mas minha paixão é a escultura", explica, mostrando suas obras de arte espalhadas por todos os espaços. Antes de vir para cá, ele morava na zona norte da cidade: "Com a morte de minha mãe, não consegui levar nossa casa sozinho", lembra ele. O escultor já conhecia o condomínio por meio de um amigo e, quando soube que havia um imóvel à venda, foi atrás e o arrematou. Derrubou poucas paredes para integrar sala, um quarto e corredor. "Esse bairro tem jeito de cidade do interior", elogia o morador, que faz liang gong (ginástica oriental) na praça em frente ao prédio duas vezes por semana. Foi por indicação de Caíto que Vinícius e Lua conheceram o imóvel onde moram.
 
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Dúplex com escritório e jardim
Fuad Murad é daqueles profissionais que não param quietos. Já foi sócio de restaurante e hoje tem parceria numa pousada. Mas se dedica mesmo à construção e ao design de interior. Em obras grandes, trabalha com um engenheiro. "Sou autodidata", revela ele, que detém o apartamento do último andar. "Quando vim olhar o imóvel com o corretor, o cheiro do local era insuportável, pois a antiga moradora tinha mais de 20 gatos." Pagou R$ 120 mil, em julho de 2003. Além disso, havia problemas na rede elétrica do prédio. "Se você ligasse algum aparelho na eletricidade, estourava", lembra Murad. Assim, ele teve criatividade e tino comercial ao propor um negócio ao condomínio: ficou com a laje sobre seu imóvel em troca de custear a renovação do sistema geral. Na reforma, ganhou um dúplex. Abriu uma escada entre os dois pisos (à esq.), tirou o telhado, impermeabilizou a laje de cobertura e construiu ali um escritório com jardim. No total, 305 m2. A reforma custou quase o mesmo que o apartamento. "Uma vez por ano quero mexer aqui, pois minha casa é a carta de apresentação do meu trabalho." Faz um mês, ele retocou as paredes, como mostram as fotos.
 
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Marcação de cores
Dois outros jovens talentos da arquitetura também ocuparam um apartamento neste edifício em 2004. Silvio Oksman e Anna Helena Villela ainda esperam compor o mobiliário definitivo, e o cheiro de tinta fresca continua no ar. "Vendi um imóvel de cerca de 50 m2 na zona oeste e comprei este aqui", conta Oksman, satisfeito com sua escolha. Ele manteve apenas um dos quartos fechado e montou ao lado um closet. Na cozinha, que também fica aberta para a sala, trocou a pia de lugar, preferindo deixá-la centralizada (configuração chamada de ilha).
 
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Acampados na reforma
Os mais novos moradores deste endereço ­ os arquitetos Giuliana Martini e Lorenz Meili ­ são devotos do centro de São Paulo. Foram inquilinos por muito tempo do Edifício Copan, no mesmo bairro ­ ícone assinado por Oscar Niemeyer na década de 50. "Passamos dois anos procurando apartamento para comprar. Nessas andanças, adorava olhar a praça, mas nem reparava na construção em frente", conta Giuliana. Quando viram o condomínio e uma placa de vende-se, procuraram o dono, no Rio de Janeiro, e arremataram o apartamento por R$ 140 mil. "O legal é que todos aqui estão empenhados em arrumar as áreas comuns do prédio, as instalações, o elevador", completa ela. Hoje, estão alojados na reforma, ocupando os dois quartos e acompanhando os trabalhos de perto. Esses dois ambientes, aliás, eles pretendem manter entre quatro paredes.
 
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Investigue antes de comprar
Sólido, este prédio parecia dispensar reparos. "Mas os anos se passaram e, sem manutenção, ele foi se deteriorando", conta o atual síndico, Arnaldo Aira Maransaldi, que assumiu em 2001. "A estrutura continuava boa, mas as unidades eram abastecidas por fios elétricos de 4 mm. Hoje, por causa dos modernos eletrodomésticos, o padrão é 10 mm", completa. Essa parte foi refeita, e a de hidráulica está em estudo. Maransaldi dá dicas para quem aprecia os edifícos antigos. "Como foram concebidos dentro de padrões superados pela tecnologia, costumam apresentar as deficiências já citadas, além da falta de garagens e problemas de administração." Antes de comprar o imóvel, apresente-se aos futuros vizinhos e descubra o cotidiano do condomínio. Se possível, leia a ata das assembléias dos últimos dois anos e conheça os pontos críticos. Ele alerta para a necessidade de fazer um fundo de obras. "O condomínio vizinho, da mesma idade, é um exemplo de organização. Não necessita de obras, mas continua arrecadando com esse fim para enfrentar eventuais situações de risco."
 
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O futuro da Vila Buarque
"Quem ama cuida, colabora e participa." Com esse slogan, o programa Ação Centro da Prefeitura de São Paulo, coordenado pela Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), estabeleceu 130 iniciativas para essa área da cidade a partir de 2001. A Vila Buarque integra o projeto de requalificação urbana: "Foi elaborado um programa funcional, que define os usos e as atividades a serem incentivados nessa região", explica Wilson Santos, da assessoria de comunicação da Emurb. A intenção, segundo ele, é torná-la mais residencial e favorecer a instalação de instituições de ensino e cultura, reforçando a tendência do bairro. "Isso se fará pela edificação de terrenos vagos, hoje ocupados por estacionamentos, e substituição de imóveis degradados", diz Santos. Recuperação de calçadas e praças também está em estudo. Parques de bolso (pequenos) ocuparão o lugar de edifícios degradados cujas dimensões não comportam outras construções. A maior parte dos recursos para as ações vem do Fundo Fiduciário Francês para Cooperação Técnica, gerido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
 
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Reportagem visual:
Eliana Medina
Fotos:
Marcos Lima