Arquiteto engajado e professor experiente, Joan Villà não encontrou dificuldades para resumir em três perguntas as linhas mestras deste projeto no litoral paulista. As questões (que servem ao mais comum dos mortais em situação semelhante) são simples: a casa deverá lembrar uma cabana intimista ou ser algo maior, com espaço para convidados? Quatro quartos compactos e cerca de 200 m2 foi a resposta. É melhor ter os pés na areia e conviver com os banhistas que lotam o local nas temporadas ou vale mais a distância da praia e uma bela vista? Prevaleceu a segunda opção. E qual o melhor sistema construtivo, considerada a distância de 234 km da capital e a escassez de mão-de-obra capacitada na região? Para essa demanda, o catalão radicado no Brasil saiu-se com uma alternativa singular: "O método construtivo que eu desenvolvi há anos e emprega painéis pré-montados com blocos cerâmicos comuns e pessoal treinado na obra". Sendo assim, tudo definido? Nem tanto. Freqüentador assíduo do litoral, Joan sabia dos constantes deslizamentos de terra naquela área e duvidava da firmeza do solo no terreno escolhido: um lote circular com 600 m2, íngreme e localizado num ponto alto do morro, acessado por uma estradinha. Também não estava seguro de que acharia trabalhadores aptos para o serviço. Até que uma aparição surpreendente o fez mudar de idéia.
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Chamado para limpar o terreno, a surpresa foi Otacílio, caseiro na região. Ele espiou no carro do arquiteto o portfólio do sistema construtivo e se ofereceu para o trabalho. Como sua experiência limitava-se a jardinagem e muros de pedra, Joan propôs um teste: ensinaria o método e ele ergueria o barracão de obras. "Ficou lindo", lembra o espanhol, que se animou com o resultado e rapidamente amadureceu o projeto da casa conforme o sistema (detalhes na página anterior). Com tudo planejado, chegou a vez da obra. O primeiro passo foi firmar o terreno com patamares e muros de arrimo de pedra e providenciar a fundação, rasa. A estrutura da construção levou colunas de concreto armado (moldadas no local) "para viabilizar o máximo de vão livre na sala e um mínimo de elementos na abóbada", diz Joan. Estrategicamente localizados, painéis de blocos cerâmicos recheados de vergalhões dividiram a carga com os pilares. "Para simplificar o transporte e a montagem, produzimos os módulos no nível superior ao ponto onde seriam encaixados; depois era só baixar e juntar", explica o arquiteto. Quatro trabalhadores levantaram a casa em oito meses. O resultado? "Tenho orgulho da casa, claro. Mas me encanta saber que as pessoas puderam sair daqui com uma boa noção de obra", diz. "O Otacílio aprendeu a ler plantas e já fez outras construções."
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Esquema industrial feito em casa
O método criado por Joan Villà propõe a racionalização do canteiro de obras - que parece uma fabriqueta. Em vez de assentar tijolo sobre tijolo e erguer lentamente as paredes, os trabalhadores produzem no local painéis que depois são encaixados uns nos outros e dão forma à construção. O modelo básico, próprio para parede (mede 45 cm de lado e 9 cm de profundidade), usa duas fileiras de blocos. As peças são encostadas nas laterais de um gabarito de madeira, a seguir têm os vãos recheados com concreto e ferro. Também há peças com mais ferro e função estrutural, com conduítes para a fiação, ou com a tubulação no miolo. Assim se fazem ainda lajes, telhados, escadas e abóbadas. O arquiteto elabora o projeto arquitetônico pensando nessas unidades e estipula quantos painéis de cada tipo serão produzidos. Qualquer pessoa treinada rapidamente na obra aprende a erguer uma construção do gênero.
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O arquiteto
Nascido em Barcelona (Espanha) em 1940, Joan Villà está no Brasil há 54 anos. Formou-se pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, onde ensina Projeto Arquitetônico desde 1975. Em 1984, começou a desenvolver um sistema construtivo simples e barato, ideal para mutirões, no Laboratório de Habitação da Faculdade de Belas Artes, em São Paulo. Em 1986, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ergueu protótipos e moradia estudantil. O conjunto habitacional em Cotia, SP (abaixo), usa o mesmo método, "que gera no trabalhador um compromisso com o resultado", diz. Joan será homenageado na 6ª BIA - Bienal Internacional de Arquitetura e Design, de 22 de outubro a 11 de dezembro, em São Paulo.