Arquitetura & Construção
 
 
 
 









 
Edição de novembro de 2005
Ai, que dor de cabeça!
Alguma coisa deu errado em sua obra? De 60 depoimentos enviados por nossos leitores, só dois sortudos disseram que não. E, ao contrário do que se espera, 35% das queixas não eram sobre a mão-de-obra, mas contra a qualidade do serviço prestado pelos arquitetos e engenheiros.
Garagem em que o carro não consegue entrar, fundação mal calculada, telhado com caimento incorreto. Não, não foi culpa do pedreiro. O erro estava lá atrás, no projeto. Claro que falhas na comunicação entre clientes, projetistas e mão-de-obra, ou ainda má escolha dos operários, são citadas também como causas de estresse, mas o que dizer dos erros que começam no papel? Francisco Segnini, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e avaliador dos cursos de arquitetura do país para o Ministério da Educação sugere uma resposta: "As nossas escolas estão criando fachadistas e decoradores que não têm idéia da elaboração total do projeto. Eles solicitam que os engenheiros desenvolvam projetos de estrutura, cobertura, hidráulica e elétrica e, estes, por sua vez, nem sempre fazem algo que corresponda às intenções do projeto arquitetônico inicial", conclui Francisco. Ele culpa, em parte, os cursos de faculdades que oferecem carga horária de 3 mil horas em média, enquanto uma formação de qualidade considerável exige 6 mil horas de dedicação do aluno. Teoricamente, ao sair da faculdade, o arquiteto deveria estar apto a fazer todos os projetos - estrutura, hidráulica, elétrica, ar-condicionado, paisagismo. Ou seja, ser um profissional completo - mesmo com essas qualificações é natural que ele se especialize depois e que seja necessária a contratação de outros profissionais. Porém, se os arquitetos tivessem uma formação ideal, não fariam plantas inacabadas, sem os necessários detalhes construtivos. Eles também deveriam ter habilidade para amarrar todas as pontas do processo. Os erros mostram que isso não está acontecendo.

Segundo o diretor do Departamento de Engenharia de Construção Civil do Instituto de Engenharia e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Roberto Kochen, em 1% dos casos pode haver erro de cálculo. Índices maiores que esse mostram, no mínimo, arquitetos e engenheiros pouco atentos. Para ele, muitos deles são empregados de grandes empresas que realizam paralelamente trabalhos particulares nas horas vagas.

O outro lado
Mas o cliente também tem sua parcela de culpa. O presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea), Jorge Königsberger, acredita que a função do arquiteto é mal entendida. "Muitas vezes, por ignorância ou economia, os clientes querem arquitetos apenas para a elaboração de anteprojetos, delegando a mestres-de-obra ou empreiteiros todas as etapas complementares." Ou seja, parte das falhas teria origem em contratações parciais ou viciosas. Quando o arquiteto é contratado apenas para a elaboração da planta, ele não se responsabiliza por eventuais erros de execução causados pela mão-de-obra. Por isso, é preciso deixar bem claro, no contrato, as atribuições do profissional. "Visito minhas obras muito menos do que deveria, pois os clientes não querem pagar por esse serviço", reclama o arquiteto Antônio Fabiano Júnior, de Jundiaí, SP. "Mesmo assim, ouço queixas sobre desperdício de materiais", conta. Ora, o projeto é uma parte muito importante da construção. Mas, antes de tirá-lo do papel, outro profissional - que pode ser um engenheiro ou o próprio arquiteto - deve entrar em cena para calcular o material e ajudar o pedreiro a entender os desenhos. Depois, irá também fiscalizar os trabalhos.

Quem não se comunica...
Assim, a conversa é item fundamental numa obra eficiente. Ela começa antes da contratação - momento em que o cliente deve vasculhar a vida do profissional, avaliar seu currículo, visitar obras, saber em que faculdade se formou. Na elaboração do contrato, as partes precisam estipular exatamente o que cabe ao profissional e quanto o cliente pagará por isso. Durante a concepção do projeto, faça-se entender pelo arquiteto - mostrando a ele referências do que gosta e dizendo se ficou ou não satisfeito com o que viu nos esboços. Finalmente, se o arquiteto não for o responsável pela obra, ele deve, ao menos, bater um longo papo com o engenheiro ou construtor e fornecer os projetos para facilitar a execução. "Tudo tem que ser falado claramente. Caso contrário, o cliente acha que o arquiteto sabe o que tem de fazer, e o arquiteto acredita estar realizando o sonho do cliente. No final, ninguém se satisfaz", pontua o arquiteto Fabiano. E não pense que essa comunicação intensa pára por aí. A obra precisa ser acompanhada de perto pelo dono e ele deve apontar detalhes que achou estranhos. De fato, ninguém conhece melhor a casa em que vai viver do que o futuro morador e nada escapa ao seu olhar. Será que essas medidas acabam com os erros? Talvez apenas minimizem. Mas uma relação aberta é mais saudável do que se omitir e ficar esperando a bomba estourar - e trazer desgosto, briga ou discussão.

Erros mais comuns
Os problemas apontados pelos leitores poderiam ter sido evitados se houvesse cuidado na elaboração dos projetos.

Desnível de piso: muitas vezes é defeito de execução (mão-de-obra), mas também pode ter sido erro de projeto, em que não se especificou exatamente o caimento. Para consertar, só há uma solução: quebrar, compactar o aterro e fazer tudo de novo.

Telhado com caimento incorreto: a cobertura precisa de um projeto específico, que deve contemplar estrutura, caimento e tipo de telha. Se o cliente gosta do modelo capa-e-canal, por exemplo, o arquiteto deve especificar a inclinação adequada, que é de 25%. O responsável pela obra cuidará para que as instruções do projeto sejam seguidas, evitando infiltrações e goteiras no futuro. O arquiteto também avaliará o local onde a casa será construída para saber o tipo de telhado e as telhas mais indicados para o clima da região. Coberturas com defeitos graves em geral devem ser completamente refeitas.

Escada mal projetada: entre as falhas estão as vigas que obrigam o morador a abaixar
quando está passando (no projeto, a distância entre o degrau e a estrutura acima dele deve ter 2,10 m). A escada deve ser definida antes - inclusive seus acabamentos. Quando ela está errada, é necessário demolir e fazer outra.

Umidade: aqui, a falha costuma ser conjunta - do arquiteto e do cliente. O primeiro, muitas vezes, nem sugere a impermeabilização - que deve ser feita da fundação à cobertura, se você quiser ficar livre de problemas. Quando o arquiteto o faz, é a vez de o cliente reclamar de preço e dispensá-la. Arrumar um piso ou uma parede sem impermeabilização custa 15 vezes mais que garantir a proteção durante a obra.
Reportagem:
Giovanny Gerolla
Ilustração:
Omar Grassetti