Sustentabilidade

Taipa

Barro do terreno ergueu este refúgio ao pé da serra.
 

[img0]Arquiteto: Maxim Bucaretchi
Área: 330 m2
Localização: São Francisco Xavier, SP
Por que é ecológico: taipa de pilão, fossa séptica e estrutura de madeira reciclada.

 

Ao ministrar um curso sobre taipa de pilão (sistema construtivo em que a terra é comprimida dentro de uma fôrma de madeira), o arquiteto Maxim Bucaretchi conheceu o administrador de empresas Francisco Da Riva. "Durante o intervalo, ele me falou sobre o desejo de construir com essa técnica no lote que possuía na região de São Francisco Xavier, interior de São Paulo", lembra o profissional. Quando visitou o terreno ao pé da serra da Mantiqueira, Bucaretchi constatou a viabilidade do sonho e, com participação ativa dos proprietários, fez o que mais gosta: um projeto que valoriza e aproveita os recursos naturais. "A dificuldade de acesso também nos levou à opção de utilizar matéria-prima abundante no local", diz o arquiteto. Caso da terra removida durante a implantação, componente da maior parte das paredes da casa de 330 m2, que traz ainda bambu e pedra nas fundações e nos muros de arrimo. Já antigos postes da Eletropaulo (companhia paulista distribuidora de energia) deram origem a vigas e pilares para vencer os vãos generosos (7 m) da construção. "Na época, a empresa estava trocando os postes de eucalipto pelos de concreto, e o Francisco arrematou 50 deles por uma pechincha", conta Bucaretchi. Pronta em cinco anos, a casa é um deleite para os proprietários. "O fazer foi tão bom quanto o resultado", afirma ele.

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"Arquitetura e educação se complementam" - Maxim Bucaretchi
Formado nos anos 70, o arquiteto Bucaretchi integra a geração influenciada pelo concreto armado dos modernistas. Entretanto, não se fechou a outras possibilidades, como a utilização do aço, da madeira, de painéis pré-moldados e sistemas construtivos alternativos. "A arquitetura é fruto da realidade e da cultura do lugar onde vai estar inserida", diz.
A&C: Desde quando você constrói com terra?
Maxim Bucaretchi: Nos anos 80, participei da reurbanização de uma favela em São Paulo, em que a terra era a principal matéria-prima. Lá criamos um centro de produção de material e de capacitação de mão-de-obra. Ao informar, criar repertório e mergulhar no mundo das culturas construtivas, essa experiência confirmou que arquitetura e educação são vias complementares.
A&C: Construir com terra exige mão-de-obra especializada?
Maxim Bucaretchi: É possível treinar qualquer pedreiro. Nessa construção, trabalhamos com mão-de-obra local, capacitada desde o início da obra para organizar o canteiro e produzir as ferramentas. Montamos uma maquete para facilitar a visualização do projeto.
A&C: O processo demora?
Maxim Bucaretchi: É mais lento do que construir com alvenaria. Não se pode trabalhar em época de chuva, por exemplo. Para ficar pronta, uma casa como essa leva, em média, seis meses de trabalho no pilão manual.

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Usada em paredes estruturais, a taipa é reconhecida pela resistência
Legado do Oriente Médio, a taipa de pilão caracterizou a arquitetura de São Paulo até a segunda metade do século 19, quando caiu em desuso com a chegada dos imigrantes, adeptos da alvenaria. "Dentro do conceito de desenvolvimento sustentável, essa técnica não pode ser esquecida porque utiliza um recurso abundante de grande resistência e qualidade térmica", diz Bucaretchi. Antes de iniciar a obra, verifica-se o tipo de solo. Nessa construção, as fundações de pedras recolhidas do terreno apóiam as paredes de 36 cm de espessura compostas de uma mistura na proporção de 70% de terra, 18% de areia e 12% de cal. Para reforçar a estrutura e livrá-la da umidade, adicionou-se à massa baba de cupim (disponível no mercado com o nome de DS 328). Na seqüência, a composição foi despejada entre as fôrmas de madeira, em camadas de 10 cm por vez, e socada com um pilão até o recheio se reduzir a 5 cm. Na confecção, os pedreiros trabalharam com ferramentas desenvolvidas pelo arquiteto. Prontas em seis meses, as paredes desenformadas foram protegidas com plástico até receber o telhado.

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fotos: Luiz Roberto Pereira